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segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Plurissignificação em Franz Kafka e Salvador Dalí

O objetivo deste estudo é analisar o conto "A Ponte" de Franz Kafka, dando ênfase à metáfora da ponte. E como o autor trabalha com uma característica onde o imaginário é extraído do sonho, abordaremos uma comparação com a obra do pintor surrealista Salvador Dali.



Franz Kafka (1883-1924), escritor tcheco de língua alemã, criou uma das obras mais originais do século XX. Fruto de sua personalidade complexa e atormentada, mas também de sua intuição e talento literário. As preocupações de sua literatura expressam certas inquietudes do homem e do seu século; descreve o universo angustiante e opressivo em que o indivíduo está sozinho e impotente diante da burocracia, da justiça, do poder e da sociedade, que aparecem diante dele como algo hostil e incompreensível.
O autor e sua obra são inseparáveis, porém, ao analisar o conto, não o faremos de ponto de vista da vida do autor, apesar de críticos afirmarem que seus contos retratam cenas de sua própria vida. Segundo Bakhtin "o autor é como Deus: cria seus personagens a sua imagem e semelhança"; mas aqui mostraremos que o conto é outro universo: "Plurissignificativo" 

A ponte:
Eu estava teso e frio, eu era uma ponte; deitado por cima de um abismo. No lado de cá estavam fincadas as pontas dos pés, além, as mãos, cravei os dentes num barro que se esboroava. A abas do meu casaco esvoaçavam a meus lados. No fundo rumorejava o gelado arroio das trutas. Nenhum turista iria perder-se naquela altura intransitáveis, a ponte ainda não fora marcada nos mapas. Assim fiquei deitado esperando; tinha de esperar. Sem desabar, nenhuma ponte, uma vez erigida, pode deixar de ser ponte. 
Foi certa vez, para o entardecer  – se foi a primeira, se foi a milésima, não o sei  –
meus pensamentos andavam sempre confusos, giravam, sempre em círculo. Para o entardecer, no verão, o riacho rumorejava mais soturno, foi então ouvi passos de um homem. Para cá, para cá.. Espicha-te, ponte, coloca-te em posição, viga sem corrimões , segura aquele que te é confiado. Equilibra imperceptivelmente a insegurança de seu passo, se ele porém vacilar, então dá-te a conhecer e, como um deus da montanha, atira-o à terra firme. 
Ele veio, tateou-me com a ponta ferro de seu bastão, depois ergueu com ela as abas do meu casaco, ordenando-as em cima de mim. Enfiou a ponta em meus cabelos tufados e, provavelmente olhando desorientado em volta, deixou-a ficar ali por longo tempo. Depois, porém- eu estava justamente a acompanhá-lo em meus sonhos por sobre os montes e vales- saltou com ambos os pés bem no meio de meu ventre. Estremeci, tomado de uma dor atroz, totalmente sem saber quem ele era. Uma criança? Um sonho? Um salteador? Um suicida? Um tentador? Um exterminador? E virei-me para o olhá-lo- uma ponte que se vira! Eu ainda não tinha completado a volta, e já fui despencando, despenquei, e já fui dilacerando e espetado pelos seixos pontiagudos que sempre me haviam fitado tão pacificamente através das águas impetuosas. 
(Tradução de Betty M. Kunz)


No conto A Ponte, o narrador antes de se apresentar afirma sua condição: "eu estava teso e frio"; mostrando primeiro a sua condição no  mundo condição em que se encontrava. Teso é um adjetivo que significa estirado; estendido; firme. Este adjetivo unido ao outro "frio" estabelece a condição sentimental do narrador até o desfecho do conto. Narrado em primeira pessoa, sendo o narrador uma ponte, já se nota o absurdo dessa condição.
Uma ponte possui dois extremos, como no conto: "no lado de cá estavam fincadas as pontas dos meus pés, no lado de lá, as mãos". Os pés representam a condição de realidade, de caminho firme, enquanto as mãos representam o tato, o sentir, o tocar, o desejo, mostrando o sonho. O narrador trabalha com as duas dimensões no conto : "Realidade e Sonho" e, para isso, ele se metaforiza em uma ponte, que une esse dois universos. Então o narrador é o elo que os une, é condição que mantém realidade e sonho ligados.
O narrador diz ainda: "turista algum iria perder-se naquela altura intransitável, a ponte ainda não fora marcada nos mapas". Aqui o narrador mostra-nos que mesmo ele sendo um elo, algo para ser transitado, ninguém se aventuraria naquele trajeto. Condição de solidão do narrador de estar sozinho, vivendo  realidade e sonho ao mesmo tempo. Quanto a não marcação nos mapas, retrata a falta de reconhecimento de não ser algo totalmente real. O narrador sugere que o que ele vive não é totalmente real e nem totalmente sonho. É o omento incompreensível. Por isso sua firmeza e frieza desde o início do conto.
Continua o narrador: "tinha de esperar. Sem desabar, nenhuma ponte, uma vez erigida pode deixar de ser ponte" O autor trabalha muito com Realidade x Sonho. O protagonista é o elo, sendo este elo, nunca depois de erguido pode deixar de exercer tal função, assim o narrador sugere que para o sonho um dia ser concretizado ele tem de ser forte e resistente, ele mesmo afirma: "tinha de esperar".
Em outra passagem do conto, o narrador se encontra com algo (para ele) totalmente inusitado. Uma ponte serve para passagem de pessoas, daí o narrador estranha quando ouve passos sobre ele : "Foi então que ouvi passos de um homem". Nota-se nessa passagem da narração que o autor enfatiza o "para cá", acentuando mais a realidade. Ele estava sendo inaugurado, e nessa nova realidade, o narrador sofre, sua angústia é sofrida apenas na realidade, pois, em nenhuma circunstância ele cita o "lá", como já analisamos, representa o sonho, o abstrato. Então tudo o que é estranho está no plano real do narrador.
Depois, o narrador começa descrever totalmente em um tom de suspense: "Ele veio, tateou-me coma ponta de ferro de seu bastão, depois ergueu-me com ela as abas de meu casaco, ordenando-as em cima de mim". aqui o narrador descreve uma imagem em que o "outro" o faz de passarela, como era a primeira vez que aquela ponte era esteiada por alguém, esse "alguém" se faz triunfante e a ponte se transforma em uma passarela. Passarela que está relacionada diretamente com um lugar de exibição, o "outro" se exibe por cima dela. Mas o narrador se mantém firme. Mas surgem um paradoxo: enquanto ponte, o narrador está contemplando "o gélido arroio das trutas"; observando as águas. Quando surge o absurdo: "Saltou com ambos os pés bem no meio de meu ventre"; Com isso pode ocorrer se o narrador está de costas para o céu? O que realmente o narrador sugere com esta imagem tão contraditória? O que significa o ventre?
O ventre é parte central onde estão alojados diversos órgãos como: o estômago, intestino, fígado etc. Mas no conto, o protagonista é uma ponte, então o sentido de ventre é figurativo. O ventre está ligado ao âmago, isto é à essência. O narrador sente aquele impacto semelhante a um soco que nos tira o fôlego e nos faz perder as forças. O narrador deixa o seu estado primitivo de "teso" e passa a ser flexível.
Tenta encarar o desconhecido, ao vira-se pra encarar o problema surge o inesperado novamente, o narrador se descuida e cai em total contradição: "Uma ponte que se vira!"
Neste momento a ponte despenca abismo abaixo e se desfaz. Isso remete á virada do conto. Ao momento em que o narrador está sozinho em sua constante solidão, ele se mantém firme, observando apenas as águas, no momento de curiosidade e aflição por estar sendo inaugurada, o narrador-ponte, tenta observar o céu, e com isso cai. Novamente a imagem do real e sonho é percebida no conto.
As águas impetuosas, como o narrador traduz no conto, podem nos remeter à ideia de real. Um real totalmente conflituoso, em que o narrador sofre sua condição diante do mundo que o cerca. Ele vive esse conflito sobre sua realidade. Mas no momento em que ele se desliga do real, ao virar-se, acontece a queda. O céu que tanto o narrador espera contemplar, é traçado como algo desejável por ser infinito.
O autor tenta passar uma reflexão em que o ser humano, servindo de elo entre o sonho e a 
realidade nunca pode ceder  para uma lado. Tem de estar totalmente firme, como uma ponte. Se isso ocorrer, pois se em algum momento de nossas vidas estivermos em conflitos por esse dualismo (real e imaginário), teremos uma queda insuperável, sofreremos ora por sermos totalmente realistas, e ora por tratarmos o mundo apenas como algo subjetivista ao extremo.  Nesta metáfora provocadora, Kafka transmite uma imagem associada ao sonho; e semelhantemente....


Salvador Dali (1904- 1984) era um publicitário autodidata incontrolável e cultivador da arte do mais famoso bigode do mundo. Dali enfatizava a imagem do sonho em suas obras como método "paranoico-crítico". O trabalho de Dalí chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica.
Agora vamos nos deter em algumas obras:


A persistência da memória, o mais conhecido dos quadros, Dalí levou apenas 2 hrs para realiza-lo.
A flacidez dos relógios dependurados e escorrendo mostram uma preocupação humana com o tempo e a memória. A cabeça adormecida que aparece nesse quadro, em muitos outros também, é o próprio Dalí presente.


Em sono, Dali recriou o tipo de cabeça grande e mole e o corpo inexistente que aparecia com tanta frequência nos seus quadros por volta de 1929. Neste caso, entretanto, o rosto não é um auto-retrato. Sono e sonhos são temas comuns aos surrealistas, uma vez que é dormindo e sonhando que temos o dominio do inconsciente. O homem adormecido de Dali está dormindo precariamente sobre muletas. Muletas sempre foram a marca registrada de Dali, sugerindo a fragilidade em que nossa realidade se apoia. Até o cachorro está sustentado por ela. Toda a luz desta obra, mostra a ideia de fuga do mundo real.

Após a segunda guerra mundial, imaginava-se que o mundo seria outro e que nasceria um novo homem dessa experiência traumática que é a guerra .
Mas a visão de Dalí não demonstra este otimismo. A criança que assiste ao nascimento está assustada e a mulher que aponta para o acontecimento, a saída do homem do ovo - mundo, é ao mesmo tempo esquelética e musculosa. É uma atmosfera de ameaça e não de alegria. O ovo é o próprio mundo, com uma casca mole, onde os continentes são moles e estão derretendo: misteriosamente, a África ocidental deixou cair uma lágrima. Há uma gota de sangue escorrendo da abertura de onde sai o homem.



O método "paranoico-crítico utilizado por Salvador Dali envolvia a percepção de mais de uma única imagem em configuração. Surge então a ideia de plurissignificação. A imagem transmite além de nossas percepções visuais. Transmite sentimentos.
Tanto Salvador Dali, como Franz Kafka, nos trás a imagem muitas vezes de sonhos, ou até mesmo de pesadelos que criam raízes nos nossos subconscientes. Quanto mais examinamos os grandes artistas de épocas onde a sociedade é totalmente desumana e cruel, mais apreciamos a obras de artistas como Kafka e Dalí. Não importa quão sejam suas obras, eles foram tocados pelos eventos da história assim como qualquer pessoa. Suas vidas foram destruídas por guerras, contradições e amarguras que o mundo produziram, mas maior do que tudo isso são suas obras que permaneceram infinitas em significações.

sábado, 9 de junho de 2012

Metalinguagem em José Saramago e Ian McEwan

Este ensaio tem como objetivo analisar a intertextualidade e a metalinguagem entre o escritor português José Saramago, e, o escritor britânico Ian McEwan. Para este projeto compartilharemos a obra "A Viagem do Elefante" (José Saramago) e "Reparação" (Ian McEwan). Ambos autores contemporâneos, porém de nacionalidades diferentes


Músico frustrado, melómano, admirador de Mozart, Rossini e Donizetti, o romancista Ian McEwan, para muitos o melhor escritor britânico da atualidade. Ian McEwan (Aldershot, 21 de Junho de 1948), chamado por vezes de “Ian Macabro”, devido à natureza das suas primeiras obras, e que de romance a romance se tem convertido em um dos mais conhecidos da sua geração. Seu romance "Reparação" foi adaptado para o cinema em 2007 com o título "Desejo e Reparação". 
O filme não é tão fiel à obra de McEwan, porém este é outro assunto. Nosso foco será na perspectiva da metalinguagem.

José de Sousa Saramago(1922 - 2010) foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português.
Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou. em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.
 Saramago foi conhecido por utilizar um estilo oral, coevo dos contos de tradição oral populares em que a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correção de uma linguagem escrita. Todas as características de uma linguagem oral, predominantemente usada na oratória, na dialética, na retórica e que servem sobremaneira o seu estilo interventivo e persuasivo estão presentes.



Para dar continuidade ao nosso trabalho, primeiramente vamos definir o que seria a palavra metalinguagem. É formada com o prefixo grego -meta; que expressa as ideias de comunidade ou participação, mistura ou intermediação e sucessão, designa a linguagem que se debruça sobre si mesma. Por extensão, diz-se também: metadiscurso, metaliteratura, metapoema e metanarrativa. Em seu estudo sobre as funções da linguagem, Roman Jakobson considera função metalinguística quando a linguagem fala da linguagem, voltando-se para si mesma. Tal função reenvia o código utilizado à língua e a seus elementos constitutivos.
Dessa forma, em "A Viagem do Elefante", Saramago conta a história real de uma viagem épica de um elefante asiático chamado Salomão, no século XVI, que cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena. O autor cria uma ficção em que se encontram pelos caminhos da Europa personagens reais de sangue azul, chefes de exército que se vão às vias de fato e padres que querem exorcizar Salomão ou lhe pedir um milagre. O autor tem uma característica muito própria em suas narrativas, seja pela quase total ausência de pontuação, usando somente vírgulas para diferenciar os diálogos, o que analisamos como uma forma de dar realismo à fala em tempo real. Elas são anunciadas apenas por maiúsculas, após a vírgulas ou pontos. Os parágrafos são imensos, com frases entrecortadas por vírgulas. Agora as maiúsculas só aparecem para fundarem uma nova frase ou indicar uma fala, e não mais do que isso.
Outro detalhe cada vez mais presente na construção de suas narrativas é o recurso à abundantes empréstimos linguísticos, bem como a metalinguagem, que é aqui algo claramente assumido pelo narrador, que em várias passagens admite estar escrevendo um livro, ou estar produzindo um relato denominado-se como romancista. O narrador mostra uma ironia sobre o ato da poética, os valores da significação e sobre as intenções da escrita:
"(...) Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso"

Já Ian McEwan escreveu um romance que discute o conceito de literatura enquanto interpretação de um mundo, de um personagem-autor, ao construir textos para defender a ideia de uma identidade literária na literatura Inglesa, voltando ao passado, precisamente a Inglaterra de 1935 prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial. Para isso ele utiliza a personagem principal, Briony. Parece reiterar a ideia de se repensar a narrativa enquanto possibilidade de leitura do tempo e do espaço, assim como validade do conceito de "leitura de mundo"
McEwan além da metalinguagem se utiliza da intertextualidade citando várias obras literárias que transformam "Reparação" em um romance que discute a própria literatura e ao ato de escrever ao propor a interpretação das personagens sobre o que estão lendo: os cânones da literatura inglesa que começam por Samuel Richardson, Henry Fielding, Jane Austen, Henry James e Virginia Wolf. A conexão entre a literatura (espaço da criação) e o mundo (espaço da realidade).
Briony (protagonista) aspira a ser escritora, ensaia e reescreve "Arabella em Apuros" sua primeira obra baseada em suas percepções do que seria o amor. O ato de escrever estabelece o que irá conduzir Briony a uma série de descobertas sobre a realidade que não caberia na ficção. Reparar o mal causado é utilizado como confessionário que a escrita literária se propõe a partir da sua limitação.
Este recurso metalinguístico utilizado por McEwan que tanto intriga o leitor, nos mostra desde o início, que não estamos lendo o que um narrador onisciente escreveu ao relatar as desventuras dasventuras das personagens, mas o próprio relato de Briony em terceira pessoa e distanciado, quando ela termina de escrever "Reparação em 1999 e o finaliza com suas iniciais (BT). Depois de mais de trezentas páginas, o leitor percebe que o que foi escrito até então era fruto da "Mente" de Briony que se mistura ao narrador: Para mostrar esse recurso retiramos excertos da obra:

"[..] estive pensando em meu último romance, que deveria ter sido o primeiro[..] Cometemos um crime- Lola, Marshall e eu- e, a partir da segunda versão, resolvi narrá-lo. Achei que tinha a obrigação de não disfarçar nada- nomes, lugares, circunstâncias exatas, coloquei tudo no texto, por uma questão de exatidão histórica [..]"

"Pensar, tudo bem, escrever não [..] Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus"

A escrita, nesse caso, é um processo ciado pela memória coletiva das personagens, por mais que o escritor se isole para escrever. Esse processo é uma tentativa de interpretação da "realidade" que não cabe inteiramente na literatura, ou seja, não é possível pensar em personagens como "seres reais", mesmo quando escritores buscam uma representação perfeita do pensamento humano


Dessa forma concluímos que ao compararmos as duas obras notamos que seus respectivos autores são prisioneiros de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores os libertam dessa prisão. O autor usa a palavra literária para às vezes libertarem-se de suas angústias existenciais, o desconforto ante sua visão do mundo, em contrapartida do próprio mundo, o autor assim usa essa palavra literária por evasão, libertação de suas ideias, a cura dos seus anseios. Mas, também, o autor usa literatura como forma de denúncia, suas palavras já não precisam de bússolas para serem guiadas, por si só, já fazem o caminho direto. Isso pode ser notado no trecho do excerto de Saramago:

"[...] No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas seletiva, é também discriminatória, só come da vida o que lhe interessa"